Leka
segunda-feira, 14 de abril de 2014
O lenhador e sua mulher
Um lenhador, acostumado ao trabalho árduo de derrubar árvores, terminou casando-se com uma mulher que era exatamente o seu oposto: delicada, suave, capaz de fazer lindos bordados com seus dedos gentis. Orgulhoso de sua esposa, ele passava o tempo todo na floresta, fazendo o seu trabalho, de modo que nada faltasse em casa.
Viveram juntos por muitos anos, tiveram três filhos - que cresceram, estudaram, casaram-se e foram viver em lugares distantes, como, aliás, acontece na maioria das vezes. O casal continuava na mesma cabana, mas enquanto o homem sentia-se cada vez mais forte por causa do seu trabalho, a mulher começou a definhar. Já não bordava mais, perdeu o apetite, não fazia suas caminhadas diárias, e viu desaparecer toda a alegria de sua vida. Seu estado de saúde agravou-se de tal maneira, que já não se levantava mais da cama.
O marido já não sabia o que fazer. Uma noite, quando uma febre alta fez com que o rosto de sua esposa ficasse de uma palidez quase mortal, ele tocou com suas mãos fortes os dedos delicados da mulher, e começou a chorar:
"Não me deixe", dizia, soluçando.
A mulher teve forças para dizer, no meio dos delírios provocados pela febre:
"Mas por que você chora?"
"Por que eu preciso de você"
O brilho nos olhos da mulher pareceu retornar:
"E só agora está me dizendo isso? Eu achei que, quando nossos filhos cresceram e partiram, minha vida perdeu o sentido. Você sempre foi tão independente!"
"Eu tinha vergonha de demonstrar meus sentimentos", disse o lenhador. "Sempre achei que não merecia tudo o que fez por mim."
A partir deste dia, a mulher voltou a recuperar sua saúde, recomeçou a andar na floresta e a fazer seus bordados. Sua vida.
por Paulo Coelho
terça-feira, 1 de abril de 2014
Escapando das ameaças
Está escrito em 'A compreensão impassível' – também conhecido como 'O Tratado de Tahlan' devido ao nome de seu autor, que era ao mesmo tempo um mestre de esgrima e um monge zen:
Pensamos muitas vezes que a atitude ideal é dar a vida por um sonho: nada mais errado que isso.
Pensamos muitas vezes que a atitude ideal é dar a vida por um sonho: nada mais errado que isso.
"Para atingir um sonho, precisamos conservar nossa vida e, portanto, é obrigatório saber como evitar aquilo que nos ameaça. Quanto mais premeditarmos nossos passos, mais chances temos de errar – porque não estamos levando em consideração os outros, os ensinamentos da vida, a paixão, e a calma.
Quanto mais acharmos que temos o controle, mais estaremos distantes de controlar qualquer coisa. Uma ameaça não dá avisos e uma reação rápida não pode ser programada como um passeio durante a tarde de domingo.
Portanto, se você quiser entrar em harmonia com o seu amor ou com o seu combate, aprenda a reagir rápido.
Através da observação educada, não deixe que a sua suposta experiência de vida o transforme em uma máquina: use esta experiência para escutar sempre a “voz do coração”.
Mesmo que não esteja de acordo com o que esta voz está dizendo, respeite-a e siga seus conselhos: ela sabe o melhor momento de agir e o momento de evitar a ação. Isso vale para o amor e para a guerra."
por Paulo Coelho
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