*texto de Thiago Schiavinato
Sempre acordavam na mesma hora. Ela corria pro banheiro, tomava a ducha fria, não importando a estação do ano ou a temperatura. Fora do quarto dividiam pouca coisa. Ele fazia o café. Ela dizia que a água fria era vida. Ela professora. Começava às 7, Ele bancário terminava às 4.
Apesar do sexo escasso, se davam bem. Ela dizia que a banalização do sexo prejudicaria a relação, julgava duas vezes ao mês mais do que suficiente. Ele se virava como podia. Não era avesso ao uso das próprias mãos, mas de vez em quando Ele recorria aos trabalhos esterilizados de alguma profissional.
Não considerava traição, mas por via das dúvidas Ele sempre levava um presentinho para Ela após as tardes lascivas. Uma flor, um livro ou a fruta da época. Apesar de sempre querer o perdão para sua impureza púdica, Ele na sua confusa cabeça era fiel.
Numa tarde calorenta e cheia de mosquitos Ela começou também a trazer presentes para Ele. Na primeira semana uma camisa gola V. Na segunda um gel para o cabelo. Na terceira uma loção pós barba.
Com isso parou, Ele então, de presenteá-la. Passou a tocá-la nas madrugadas úmidas. Era janeiro, o mofo subia junto com o fogo da, outrora, frígida esposa.
Com isso parou, Ele então, de presenteá-la. Passou a tocá-la nas madrugadas úmidas. Era janeiro, o mofo subia junto com o fogo da, outrora, frígida esposa.
Ela estremecia as pernas, contorcia em desejo, molhava as partes necessárias e eles faziam o melhor dos sexos. Pareciam dois novos amantes. Peles quentes, desejo, calor. Eles.
Pela manhã a mesma rotina. Café, ducha, jornal, pão da padaria do seu Adolfo e frieza. Ele satisfeito e encucado, Ela com a pele ótima e silenciosamente feliz.
Ele contratou um detetive para seguir Ela. Mesmo em dúvida sobre os cornos, Ele amava Ela ainda mais. Faziam sexo como na época em que se conheceram, há longínquos 15 verões. Ele abandonou até mesmo o primeiro dos pecados eclesiásticos. A safira matutina.
Na segunda semana o detetive lhe trouxe um endereço. Após observações minuciosas, passou-lhe um relatório completo das atividades extra-curriculares Dela. A visita diária à um certo endereço após o encerramento da jornada laboral despertou curiosidade e desespero.
Apesar do gozo quase diário, do prazer, da paixão Ele estava destruído. Pensamentos bovinos ocuparam sua serenidade, havia perdido a devoção submissa. Nesta madrugada gozou com raiva. De um amigo catireiro comprou um 38. Cano curto, cromado. Numeração raspada.
Como de costume transaram na madrugada seguinte. Ela antevendo o crepúsculo, chupou como nunca, gozou como poucas e gemeu como a maioria. Ele dividido entre a dúvida, a esperança e a vergonha, gozou. Um gozo amargo de boldo.
Na manhã. Ducha, café, jornal, pão do seu Adolfo, Ela sorriu. Ela disse que precisavam conversar. Ele disse que não podia, sábado era dia da sinuca no Bar do Asdrúbal. Campeonato do bairro.
Ao chegar Ele depara-se com o corpo Dela pendurado na viga da cozinha. Sobre a mesa um bilhete. Escrito no papel de pão do seu Adolfo a frase reluzia: aos cegos nem toda a luz do sol bastaria. Ele busca o 38 e com um tiro no céu da boca, encontra a claridade glaucômica dos amores mal vividos.
**nota da editora: malvadezo novo na área. Thiago, por enquanto, está sem quadradinho aqui, mas logo completa seu cadastro como colaborador oficial do nosso blog preferido. =]
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