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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Sobre “Amour” e dor

por Julianna Granjeia
A dor mais dilacerante que eu senti na minha vida foi revivida por um filme. E, algumas semanas depois, descobri que essa dor causada pelo amor em seu estado mais puro vai voltar outras vezes.
Aquela que fazia meus coques, costurava as fitas nas minhas sapatilhas, que me apresentou Machado de Assis e Villa-Lobos, que entrava na frente da minha mãe para eu não apanhar, que me botava no colo e fazia cafuné enquanto cantava, definhou e não havia nada que eu pudesse fazer para ajudá-la.
A vergonha que ela sentiu na primeira vez que urinou na cama, os gritos de dor que se transformaram em pedidos para morrer, os chamados pela mãe aos 70 anos. Em meio a tudo isso, era preciso contar moedas para pagar os remédios, exames e consultas. Era o ano de 2001, mas ainda dói.
Na época, eu não soube lidar com o sofrimento de quem cuidava de mim e passou a depender de cuidados. Depois que ela se foi, quem adoeceu foi eu.
“Nada disso merece ser mostrado”, diz Georges (personagem de Jean-Louis Trintignant no filme) a sua filha. Mas os mais tristes e intratáveis fatos da vida têm consequências que precisam ser tratadas.
Saber lidar com o luto é saber lidar com a vida. Por isso, pra quem ainda não perdeu nenhuma Anne (interpretada lindamente por Emmanuele Riva, cada expressão dela era exatamente semelhante as da minha avó), “Amour” pode acabar com o dia. Mas é um ensaio para a vida.
As nossas Annes não merecem sofrer, sentir tanta dor. E desejar o descanso, em paz, é amar plenamente, sem egoísmo.
O amor a gente inventa, disfarça, inventa outro de novo, mas a dor não. A dor rasga, dilacera, desestrutura, deixa traumas. Mas não podemos nos apegar a esses sentimentos ruins. O amor verdadeiro aceita que a partida, às vezes, é o melhor final.
Ter a consciência do nosso fim e de como isso pode ser deixa a passagem mais leve.
Eu só quero a sorte de uma morte tranquila.
nota da editora: Julianna Granjeia é jornalista e linda e aceitou meu convite para escrever aqui como convidade. Sorte nossa.

http://malvadezas.com/page/2/

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