Leka

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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Sobre ser feliz

- Ela me deixou, Carol. Ela foi embora! – Meu melhor amigo de Miami grita no telefone.
- Meu Deus, Gabriel, quem te deixou?
- A Rebecca! Ela me deixou!
- Qual delas é a Rebecca mesmo?
Nota: o Gabriel é um ricasso bonitão que só sai com modelecas pra, depois de comer, trata-las como absorventes usados.
- A Rebecca! A que você conheceu no meu aniversário.
- A gordinha?
- É!
- Meu Deus! Você tava pegando uma mulher gorda? Minha fé na humanidade foi restaurada!
- Eu me apaixonei por ela…
- Você? O Senhor-Eu-Só-Pego-Top-Porque-Sou-Rico-E-Moro-Em-Miami-Beach? Você está sofrendo por uma mina que não se parece com a Adriana Lima e ela ainda te largou? Calma. Calma, isso é demais pra mim!
- Porra, para, Carol. É sério!
- Gabriel, isso é fantástico! Tô muito orgulhosa de você. Sério. Você foi largado por uma gordinha. Ela não te acha tudo isso, huh? Ha! Eu nem conheço a Rebecca e já adoro ela. Mas olha, não tenho tempo pra lidar com seu drama de moço rico agora, a Blondie tá morrendo.
- O que ela tem?
- Heartworm.
- Putz! Ela vai morrer?
- Não sei. Vai começar o tratamento semana que vem.
- Ela não é igual às outras.
- Eu sei. Ela realmente é uma cachorra especi…
- Não, não a Blondie! A Rebecca!
- Claro que não, Gabriel. As outras não são nada. Elas vivem para achar um homem igual a você, que faça tudo o que elas não sabem fazer na vida: ser confiante, ganhar dinheiro, fazer algo gratificante na vida, ser independente. Elas vêem em você o que elas nunca vão conseguir ser. Aí elas te admiram, e você adora isso. É pra isso que você vive: pra ser admirado. Aí você usa essa ingenuidade delas pra suprir esse seu ego de arquiteto famoso, e depois passa pra outra. Você nem sente pena delas, porque afinal, elas passam por você sem nunca terem valido muito. Mas a Rebecca, ah, a Rebecca… Uma mulher que não precisa do seu dinheiro, e que é real com você, que te possibilita gostar dela, não da imagem dela. Não. Dela. Você conheceu ela como ela é: sem silicone, sem chapinha, sem roupas de marca, sem corpo escultural. Você, meu caro, aos 36 anos, acaba de virar homem.
- Porra, Carol! Mas eu odeio me sentir assim!
- E quem gosta? A tristeza só é proporcional à alegria. Você não era feliz antes, Gabriel. Olha pra você, você era um solteirão pegador antes, e agora você é um solteirão pegador de novo, só que agora essa ideia te deixa horrorizado. Não é irônico como o amor funciona?
- Sabe… Eu não te entendia antes.
- Antes?
- É, você, sempre vestindo a mesma calça jeans, passando os finais de semana tocando música no boteco do Haitizinho. Eu não entendia porque uma mulher como você não estava fazendo o que mulheres como você fazem.
- E o que mulheres como eu fazem?
- As unhas?
- Hahaha!
- Posso passar na sua casa, Carol?
- Não. Tenho que trabalhar amanhã. Sofre aí, daqui uns dois anos isso passa.
- Dois anos?
- É, sei lá. Gabriel, minha cachorra tá morrendo! E dor de amor só dura até você encontrar uma outra filha da puta pela qual você vai sofrer ainda mais que a anterior. Bem-vindo ao mundo real.
- Eu levo cerveja.
- Que cerveja?
- Stella?
- Não. Passa no posto e pega Guinness, ah, e passa no caixa eletrônico porque eu vou precisar da sua ajuda pro tratamento da Blondie. E eu não vou fazer sexo com você.
- Eu faria um furo no colchão antes de pensar em comer você. Quanto?
- É a primeira vez que um homem me fala isso e eu fico feliz. Quanto seu coração mandar.
- Você acha que ela vai voltar pra mim?
- Se ela tiver o mínimo de sanidade mental, não. 300 dólares.
- Porra! Vai tomar no cu!
- Sobre ela não voltar pra você ou sobre os 300 dólares?
- Sobre ela não voltar pra mim. 400 dólares e não se fala mais nisso. Lata ou garrafa?
- Garrafa.
- Te vejo em 10 minutos. Beijo.
- Te amo, tchau.
- Também te amo, tchau.

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